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O que o consultor financeiro pode fazer por você?

Já faz algum tempo que não posto um artigo novo, porém O Consultor Financeiro está longe de estar morto ou desativado. Nos bastidores do site respondo diariamente vários e-mails e comentários dos posts de pessoas que procuram algum tipo de auxilio na administração de suas contas pessoais.

Infelizmente, o serviço ainda não atingiu o grau de maturidade que eu gostaria e por este algumas pessoas podem se sentir prejudicadas pelo tempo de espera na fila por sua resposta. Perguntas mais simples geralmente eu consigo processar mais rapidamente, já os casos mais complexos chegam a levar até 1 mês para que eu possa responder, o que certamente é desmotivador para o usuário.

Porém, do meu lado, eu fico desmotivado quando vejo que meu esforço não está sendo bem utilizado. Para vocês terem uma idéia, eu gasto em média 1 a 2 horas analisando cada caso, sendo que alguns levo muito mais tempo se forem casos complexos, o que se fosse uma consultoria paga valeria em torno de R$ 100 a R$ 300 reais. O que acontece é que eu muitas vezes vejo este esforço inicial ser perdido porque não obtenho mais resposta da pessoa e nunca vou descobrir se a situação da pessoa melhorou ou piorou.

Na maioria das vezes a primeira resposta acaba sendo vaga e nunca é suficiente para resolver o problema. Isto é normal, pois estamos apenas nos conhecendo e acostumando a trabalhar em conjunto. O trabalho de consultoria só tem sucesso quando é feito no longo prazo, e a interação do usuário com o consultor toma um caráter muito semelhante ao da amizade. Ou seja, você vai ao consultor para pedir um conselho o qual você realmente pretende seguir, não espera que ele apenas lhe diga umas palavras para reconfortá-lo e depois você vai continuar insistindo nos mesmos erros.

As vezes a consultoria é uma grande paulada na cabeça. Ouvir a verdade dói, especialmente quando a verdade diz: “você está assim porque cometeu um erro”. Ninguém gosta de cometer erros, isto é fato. Mas se você está numa situação financeira ruim é muito provável que tenha cometido pelo menos um, geralmente vários. Isto também não significa que você tenha culpa.

Culpa é um sentimento inútil, que não trás beneficio nenhum para a sua vida financeira. Vamos esquecer esta parte e se concentrar nos erros. Os erros de gerenciamento financeiro cometemos por inúmeros motivos: fraqueza psicológica, azar, força maior, má influência, marketing, pressão social, enfim, inúmeros fatores que dariam um livro sobre cada um deles. O erro quase sempre decorre de uma dessas eventualidades que não somos treinados para enfrentar.  A culpa é justamente o erro que cometemos sem saber, ao contrário do dolo que é o erro intencional (me corrijam os juristas se falei alguma besteira). Portanto o sentimento de culpa é algo totalmente dispensável se tivermos uma capacidade essencial que é a de reconhecer o erro por trás daquela culpa e tratar de corrigí-lo o quanto antes.

O erro financeiro é exatamente o ponto base para o trabalho do consultor. Nós trabalhamos junto com o cliente para descobrir o que ele está fazendo de errado e corrigir este comportamento para nunca mais caia na mesma armadilha. Não basta dizer para o cliente: contate o gerente do banco, peça um empréstimo X e você vai se ver livre da dívida em N meses. Isso não funciona!

Dê N/2 meses para esta pessoa e ela vai ter uma dívida 4 vezes maior, porque agora está “sobrando” dinheiro. Isto é o que acontece se não trabalharmos a causa base, e neste momento o trabalho de consultor se confunde muito com o trabalho de um psicólogo. E não é raro as situações que precisamos do apoio destes profissionais.

Enfim, respondendo a pergunta base que originou este tópido: “O que o consultor financeiro pode fazer por você?”. Ele pode te orientar a corrigir padrões de comportamento que estão minando a sua saúde financeira, através de um trabalho continuado e em alguns casos multiprofissional, para que com o tempo você possa crescer como individuo e possuir um patrimônio digno de seu mérito quando se aposentar, ou mesmo antes disto!

Capitalismo: uma história de amor

Eu não sei se este filme já chegou oficialmente no Brasil, mas “Capitalismo: uma história de amor” (do inglês Capitalism: a love story) é um documentário do diretor Michael Moore que retrata algumas facetas bastante particulares do sistema capitalista norte-americano, com ênfase nos acontecimentos dos últimos anos do governo Bush e a crise do subprime.

Este filme me chamou a atenção para um problema muito sério que ocorre no mundo inteiro, e não poderia ser diferente no Brasil, que é a exploração do ser humano para obtenção de lucro. Pode parecer estranho falar sobre um assunto polêmico como este num site de finanças pessoais, porém vejo uma grande oportunidade para ajudar na educação financeira dos meus clientes e visitantes com esta perspectiva que vou lhes apresentar nos parágrafos a seguir.

Primeiro, gostaria de esclarecer que eu sou um capitalista assumido, tanto acredito no sistema financeiro que passo a investir boa parte do meu tempo estudando-o com o objetivo de compreendê-lo cada vez mais. E quanto mais eu estudo mais eu me sinto maravilhado com as definições e conceitos teóricos sobre como tudo deveria funcionar, mas por outro lado, me sinto mais e mais decepcionado sobre como as coisas de fato funcionam.

O que acontece é que as pessoas que tem mais conhecimento dos mecanismos do sistema tiram proveito deste conhecimento oferecendo produtos com o mínimo de informação possível para pessoas leigas, com o objetivo puro e simples de tirar proveito. Os empréstimos mais lucrativos são concedidos a pessoas pobres, enquanto pessoas ricas e grandes corporações pagam as menores taxas. E infelizmente, o desequilíbrio do conhecimento tende a aumentar, visto que os que sabem mais enriquecem e proporcionam as melhores condições de estudos para seus filhos, mantendo a situação por sucessivas gerações.

Sem entrar muito neste assunto, que daria vários artigos a respeito, lembro que meu objetivo como consultor financeiro é justamente corrigir este desequilibrio de conhecimento para os meus clientes, de forma que, se eles não tem a mão os melhores produtos disponíveis para aplicar, que pelo menos façam o melhor uso daqueles que estão a mão.

Eu gosto do sistema capitalista pelo fato deste sistema permitir um alto grau de liberdade para os seus individuos, e também assumo que o fato deste sistema oferecer oportunidades para o enriquecimento financeiro é uma idéia que me apela profundamente. No entanto, tenho plena consciência de que este apelo é motivado principalmente pela ganância inerente do ser humano. Às vezes é difícil de admitir, mas a maioria de nós, se não todos, somos gananciosos.

O sistema capitalista de fato oferece estas oportunidades, mas os mecanismos pelos quais elas se tornam acessíveis permanecem ocultos da população em geral. O que existe é um grande desconhecimento, falha enorme no nosso sistema de ensino, sobre como gerenciar o dinheiro a um nível doméstico e pessoal. Nós somos imersos num sistema capitalista desde o momento que nascemos, porém nunca nos foi passado um livro de regras explicando exatamente como funciona. Acabamos por auto-didatas neste sistema, fundamentando nosso conhecimento principalmente no empirismo, o que por vez causa muitos problemas no gerenciamento financeiro pessoal. Salvo algumas pessoas que buscam o caminho do aprendizado do sistema, como foi o meu caso, a grande maioria esta fadada a cometer um erro financeiro a qualquer momento, não por falta de inteligência, mas sim por causa do desconhecimento dos mecanismos de funcionamento do sistema.

Fazendo uma analogia, é como se nos dessem uma máquina de Raio-X de presente sem manual de instruções, apenas com algumas dicas de como operá-la. Entre estas dicas a pessoa fala para você que a nitidez da chapa do raio-X é proporcional a quantidade de raios que você calibrar na máquina. Maravilhados pela tecnologia fazemos milhares de chapas de nós e nossos amigos, às vezes por pura diversão, com a maior carga de raios possível para obter a imagem mais nítida. E nos orgulhamos que o nosso exame é melhor que o de muitos médicos por aí. Porém, como não conhecemos como configurar corretamente a máquina, estamos colocando uma carga de raios que é sabidamente cancerígena no meio técnico, mas como leigos não temos como saber. Finalmente, a consequencia destes atos sem embasamento técnico se manifestam depois de alguns anos: o câncer, por efeito cumulativo da radiação.

No sistema financeiro, o equivalente a esta hipotética máquina de raios-X é o sistema de crédito e empréstimos ao consumidor. Iludidos pelas aparentes vantagens (e sem embasamento técnico para orientar a decisão), as pessoas contratam tantos empréstimos quanto podem pegar, pelos maiores prazos possíveis e pelo único critério que conhecem: o preço da parcela. É como se esta parcela fosse a nitidez da chapa de raio-X, é o efeito visível e palpável. O efeito indireto (no RX: câncer devido a incidência cumulativa de raios) é a dívida que cresce sutilmente, quase desapercebida, culminando apenas anos no futuro quando a pessoa efetivamente quebra. Conheci pessoas que pagavam cerca de R$ 2.000,00 por mês apenas de JUROS, ou seja, para manter a dívida no patamar atual, sem amortizar o débito.

Este câncer do sistema financeiro, se é ruim para a população, por outro lado é ótimo para os administradores e gestores dos bancos, que multiplicam inúmeras vezes o seu capital vendendo produtos fundamentados no desconhecimento. Uma pessoa informada, por exemplo, jamais compraria um título de capitalização, que só paga correção monetária. Mas os gestores agregam a este produto um sorteio e fazem o maior sucesso, pois o cliente desinformado acaba vencido pelo apelo comercial, da propaganda com o ator sorridente curtindo uma bela vista para o mar porque acaba de ganhar no “qualquer-coisa-cap”. Isso sem falar que para sacar este dinheiro antes do prazo é aplicado ainda um redutor no seu valor!

Se você gosta de sorteios, aplique seu dinheiro de verdade no Tesouro Direto, e reserve R$ 1,50 por semana para apostar na Mega Sena. Além do prêmio ser muito mais significativo se você realmente ganhar, pode ficar tranquilo que não ganhando pelo menos seu dinheiro aplicado está aumentando de valor.

Concluo dizendo que o problema deste país está no desconhecimento da população sobre o assunto sistema financeiro. Quando se trata de finanças, nossa educação é extremamente falha, e o pior, de propósito. Eu gosto do sistema capitalista, porém é triste ver este tipo de exploração acontecendo todos os dias. Existe espaço sim para que as pessoas ganhem dinheiro sem precisar pisar em cima umas das outras, mas só vamos conseguir isso quando a educação financeira sair das universidades e passar a integrar o nosso dia a dia, desde a primeira série do fundamental. Não dá para viver com consciência num mundo onde não conhecemos as regras.

Caso ainda não conheçam, eu recomendo Capitalismo: uma história de amor de Michael Moore, um ótimo filme para despertar a reflexão sobre o mundo em que vivemos.

Estratégias de Investidor

Este texto estou escrevendo motivado por uma discussão que ocorreu no fórum ADVFN hoje à tarde durante o pregão. Um forista declarou aos demais que não acreditava em análise técnica e que apenas a análise fundamentalista era correta. Este comentário despertou as mais diversas reações, especialmente daqueles que usam a análise técnica diariamente para planejar as suas operações.

Mas afinal, qual análise é a mais adequada? Antes de responder esta pergunta gostaria de propor um questionamento que trará um bom panorama para a resposta: quando estamos atuando no mercado, o que estamos operando? “Ações” alguém poderia responder, ou “valores mobiliários” se a pessoa quiser ser mais específica. Mas a verdade é diferente. O que estamos operando de fato é “pessoas”.

Pode parecer absurdo a princípio, mas o mercado é sobre analisar o comportamento de um coletivo de indivíduos. Uma ação sem pessoas para movimentá-la não sobe 1 centavo, não há motivo nem para a sua existência! Agora, quando esta ação desperta o interesse de pessoas e estas começam a movimentá-la, aí sim o jogo começa a ficar interessante.

O objetivo do investidor é, portanto, reconhecer o comportamento dos outros investidores e através desta informação planejar as suas ações de forma a obter lucro com as operações. Se você percebe que a massa têm demonstrado um interesse muito grande em um determinado ativo pode fazer disto sua vantagem abrindo uma posição neste ativo antes que a massa se mova.

A massa tem uma forte inércia que dificulta o seu movimento rápido em decorrência da somatória de todas as dúvidas e receios que acometem os investidores individuais. Logo, para mover-se mais rápido que a massa é preciso ter um bom sistema de análise como ferramenta de trabalho. E não estou falando de sistemas comerciais, mas sim dos conceitos que cada investidor usa para analisar as operações.

Neste ponto, contudo, tanto a análise técnica como a análise fundamentalista têm os seus méritos. O motivo é muito simples: estas duas categorias de análise são bastante difundidas pela massa, logo a massa tende a seguir os seus sinais e finalmente, se a massa segue um padrão você precisa aprender a ler este mesmo padrão se quer prever os movimentos dela. A partir do momento que você fala a mesma língua que a massa e entende os seus indicadores se torna apenas uma questão de velocidade, que se reflete a partir da confiança que você tem de sua leitura dos indicadores. Se você for inseguro da análise que fez ou se a fez de uma forma muito distinta da massa, tende a se desalinhar e perder os pontos de entrada e de saída.

Outro fator importante é entender a psicologia da massa. Não é a toa que muitos renomados escritores de livros sobre o mercado de ações são médicos psiquiatras. O Dr. Alexander Elder que escreveu Aprenda a operar no mercado de ações é um dos melhores exemplos. Como investidor, acima de tudo é preciso entender a sua própria psicologia e partindo deste ponto, estender este autoconhecimento para aplicá-lo ao mercado. Cada investidor tem um perfil que irá determinar quais ativos ele irá escolher para compor a sua carteira. Ao escolher uma ação muito provavelmente você estará encontrando outras pessoas que tem o mesmo perfil que o seu, logo todos aqueles pensamentos que você está tendo (dúvidas, medos, projeções) também se aplicam a massa que investe nesta ação.

A bolsa é uma montanha-russa que alterna continuamente entre estados de euforia e medo. Medo quando você compra uma ação e ela cai um tick abaixo do seu ponto de entrada. Euforia quando aquela ação que você comprou sobe. Quando o medo se torna excessivo desperta em nós um mecanismo de defesa que quer acabar com aquele sentimento e somos movidos a vender na baixa. Quando a euforia se instala, queremos mais e mais daquele sentimento e portanto nos recusamos a vender, perdendo o ponto de saída e muitas vezes devolvendo todo o lucro da operação.

Aliás, muitas pessoas preferem perder todo o lucro de uma operação do que vender e perder uma grande subida. Este também é um tipo de inércia movido por um misto de euforia e medo. Aqueles investidores que sofrem menos desta inércia se movem mais rápido e conseguem vender nos melhores pontos.

Voltando a pergunta principal, a resposta fica clara: ambas as análises técnica e fundamentalista são válidas, porém o investidor mais completo conhece e aplica tanto uma como a outra, pois só deste modo é possível prever o comportamento, não de todos, mas de grande parte da massa de investidores que compõe o mercado.

Sei que, especialmente os analistas técnicos gostam de dizer que não se deve dar atenção a notícias e que todas as variações podem ser vistas de antemão no gráfico. Também acredito que um bom analista faz com que esta afirmação seja verdadeira, porém para a grande maioria é mais fácil interpretar uma notícia do que um gráfico e esta maioria vai seguir a notícia. Quando os indicadores estão sugestivos, mas não definidos, muitas vezes o que dá o empurrão é uma notícia ou fato relevante favorável, logo não é errado usar estas informações no planejamento de seus trades.

Como decidir quando comprar ações

Uma questão muito importante na bolsa de valores é o momento certo de iniciar uma operação. Este passo é decisivo para determinar se uma operação vai ser bem ou mal sucedida, pois muitas vezes uma diferença de centavos no preço da ação pode causar uma mudança radical no resultado, ou ainda, a escolha do momento errado pode transformar uma operação de sucesso em um total fracasso.

Para fugir deste problema foram desenvolvidos diversos métodos de análise, para fim de saber se o preço de uma ação está dentro ou fora das expectativas e se ainda há uma margem de lucro para o ativo. Até hoje não existe um método perfeito, ou se existe, ninguém o divulgou. No entanto, os métodos disponíveis, se bem aplicados, ajudam a reduzir os nossos erros e melhorar os nossos acertos, de forma que podemos não enriquecer do dia para a noite, mas temos uma ferramenta importante para acumular ganhos ao longo do tempo.

Existem dois grandes grupos de ferramentas de análise, que são a análise gráfica e a análise fundamentalista. Hoje vou me ater a descrever um pouco sobre cada um deles, e em artigos futuros tratarei de detalhar mais sobre cada um deles.

Fundamentos da Análise Gráfica (Análise Técnica)

A análise gráfica, também chamada de análise técnica, é uma ferramenta importante para a tomada de decisões do investidor. Na análise gráfica, como o próprio nome diz, tudo o que importa é o gráfico. Quando falamos de gráfico, estamos falando especificamente da representação gráfica do preço de uma ação. Os adeptos da análise gráfica seguem o princípio de que o preço da ação contém toda a informação necessária para conhecermos o comportamento da ação no futuro próximo.

Wall Street Journal

Wall Street Journal

A análise gráfica se desenvolveu a partir da chamada Teoria de Dow. Charles Henry Dow foi um jornalista, fundador e editor do Wall Street Journal e co-fundador da Dow Jones & Company (responsável pelo Índice Dow Jones). A Teoria de Dow surgiu baseada em editoriais escritos por ele para o Wall Street Journal e seu conteúdo pode ser sintetizado nos seguintes fundamentos: o mercado segue tendências; o mercado desconta todas as notícias imediatamente; as flutuações no preço de uma indústria devem convergir com as flutuações que ocorrem em todo o ciclo de produção; tendências são confirmadas pelo volume e; as tendências persistem até que haja um sinal definitivo de que elas encerraram.

Devemos dar uma atenção especial ao fato de que o preço das ações reflete eventuais notícias que venham a ser divulgadas pela imprensa. Os investidores, de uma maneira geral, acreditam que o mercado sempre se antecipa à divulgação de uma notícia, ou seja, se uma notícia boa está para sair (o que elevaria o preço da ação) provavelmente a alta decorrente desta notícia já irá ocorrer antes mesmo dela ser divulgada. Parte deste conceito vem de que o mercado costuma estar sempre “bem informado” sobre os resultados das empresas que acompanha. O mesmo vale caso uma notícia ruim venha a ser divulgada: as expectativas de maus resultados sempre derrubam o preço de uma ação.

De certa forma foi isso que aconteceu na crise de 2008, quando o espírito pessimista tomou conta dos investidores e as expectativas negativas se sobressaíram, derrubando o preço de todo o mercado. Fundamentos da

Análise Fundamentalista

Enquanto a análise gráfica abstrai o comportamento do mercado pelo preço das ações no gráfico, a análise fundamentalista possui diversos critérios para analisar o preço de uma ação, a fim de determinar se o preço da ação está dentro, acima ou abaixo do seu preço ideal teórico. Investidores fundamentalistas procuram ações cujos preços teóricos estejam acima de seu preço atual a fim de ganhar no momento que o mercado “perceber” este desnível e corrigir o preço da ação.

Além disto, existem diversos indicadores que podem auxiliar a prever o desempenho presente e futuro de uma empresa. Dentre os indicadores fundamentalistas comumente utilizados temos o índice P/L, o EV/EBITDA, o P/VPA, a margem líquida, a margem operacional e o RPL. Não pretendo neste momento descrever cada um deles, porém fica aí a dica para quem estiver interessado.

Técnica ou Fundamentalista – Qual utilizar?

Tudo depende do seu gosto pessoal. Algumas pessoas se dão melhor com um sistema, outras com o outro. De modo geral a análise gráfica costuma ser mais imediata e mais fácil de compreender, de forma que muitos traders optam por utilizá-la. Atualmente é muito fácil obter gráficos dos preços das ações em diversos sites da internet, inclusive que disponibilizam ferramentas de análise, o que costuma economizar bastante tempo.

A análise fundamentalista por sua vez exige mais tempo e disciplina, pois é necessário explorar bem os recursos do site da Bovespa ou da empresa em questão para encontrar os valores de balanço divulgados a cada trimestre e, em cima destes, realizar os cálculos de todos os indicadores que achar interessante. Além disto, é preciso ficar sempre atento às últimas notícias divulgadas e acompanhar de perto o que acontece no setor desta empresa.

Eu particularmente me adaptei bem à análise gráfica. No entanto, não deixo de estudar os indicadores fundamentalistas, pois é um conhecimento que só tem a acrescentar segurança na nossa análise se combinado com o gráfico. E também tem a vantagem de facilitar a comunicação com outros traders, pois quando consultamos um colega para uma segunda opinião nem sempre temos a garantia de que ele fale a nossa língua.

Para quem quer saber mais sobre o assunto, recomendo o livro Aprenda a Operar no Mercado de Ações, do Dr. Alexander Elder.

Calculando o Valor Real por Ação

O objetivo de todo investidor na bolsa de valores é vender tudo aquilo que compra a um preço maior daquele que pagou. Porém, nem sempre as aparências são aquilo que parecem. A principio, podemos imaginar que se vendêssemos tudo o que compramos por 1 centavo a mais do que pagamos, já estamos obtendo lucro. E mantendo este método infinitas vezes poderíamos então arrecadar infinitos centavos, ou uma fortuna!

A realidade é bem mais dura do que isso, e muitas vezes ainda podemos vender uma ação por 1 real a mais do que pagamos e ainda assim obter prejuízo ou fechar no zero-a-zero. Como isso é possível? Pois bem, toda operação de compra e venda de ações envolve algumas taxas, como comentei no meu artigo Como comprar (ou vender) ações. Hoje vou explorar melhor estas taxas e mostrar como se calcula um indicador que eu criei (me perdoem se ele já existe em algum lugar, pois procurei no Google e nada encontrei a respeito) que eu chamo de Valor Real por Ação ou simplesmente, VRPA.

O VRPA indica o verdadeiro valor pago por aquela ação, que não é o preço que você arrematou no pregão, e por conseqüência é uma aproximação do momento em que o preço da ação começa a ser rentável como ponto de saída. Em outras palavras, você compra a ação por um preço X, porém só vai conseguir obter lucro quando o preço desta ação superar o VRPA.

Para entender como ele funciona é necessário entender primeiro quais são os componentes do preço de uma ação. O componente principal é o preço de mercado, que é o valor propriamente dito da ação no momento de dar a ordem de compra. Digamos, se a Petrobrás PN está sendo negociada a R$32,00 neste momento, este é o seu preço de mercado. Além disto, devemos levar em conta o custo da corretagem (a taxa cobrada pela corretora pela execução da ordem), as tarifas da Bovespa e os impostos.

O custo de corretagem, quando usamos o home broker, varia de corretora para corretora. No caso de operações pela mesa, segue-se uma tabela fixa da Bovespa. Como acredito que o investidor iniciante vai usar preferencialmente o home broker é neste que eu vou focar este texto. Atualmente as taxas de corretagem variam de R$10,00 a R$20,00. Eu utilizo uma corretora que cobra R$14,99, a Solidez, e que ainda tem a vantagem de não cobrar corretagem após a sétima operação do dia. Eu acabo não fazendo tantas operações assim, mas para quem gosta de daytrades é um fator bastante atrativo, como será mostrado pelo VRPA.

As tarifas da Bovespa são chamadas de Custos Operacionais e se dividem em taxas de negociação e de liquidação. A taxa de negociação atualmente é 0,0285% para pessoas físicas e a taxa de liquidação é de 0,006%, totalizando 0,0345%. No caso de operações daytrade, a taxa de negociação é um pouco mais baixa: 0,019%. Vale lembrar que a taxa de negociação também pode ser conhecida como emolumentos ou Soma.

O terceiro componente é os impostos, cujo principal é o Imposto de Renda, mas também há o ISS. O Imposto de Renda retido na fonte (IRRF) deduz 0,005% do valor líquido da venda. Nos casos de daytrade, o valor retido é 1%. Note que o imposto de renda que deve ser pago à receita é 15% do lucro líquido da operação, mas independente de haver lucro ou prejuízo, automaticamente é retido 0,005% direto na fonte.

Eu não tenho uma informação precisa a respeito do ISS, porém sei que o ISS (ou imposto sobre serviços) deve ser cobrado em cima do valor do serviço prestado. No caso das corretoras, o serviço prestado é a corretagem então o ISS é independente do valor da ordem de compra ou venda. Baseado no meu histórico de negociações eu percebi que pago R$0,78 por ordem, independente do valor.

Finalmente, unindo estas informações temos a seguinte equação:

Fórmula para o cálculo do VRPA

Onde PREÇO é o preço pago pela ação, QUANTIDADE é a quantidade de ações compradas, EMOL é o percentual pago nos emolumentos, IRRF é o percentual relativo ao imposto retido na fonte, CORRETAGEM é o custo da ordem pela corretora e ISS é o imposto sobre serviços.

Abaixo temos o exemplo de uma tabela utilizada para calcular estes valores e dar o VRPA automaticamente:

TIPO AÇÃO PREÇO QTD BRUTO CORRET. ISS EMOL IRRF CUSTO VRPA
COMPRA PETR4 32,00 100 3.200,00 14,99 0,78 1,10 0,16 3.217,03 32,17
COMPRA PETR4 32,00 1000 32.000,00 14,99 0,78 11,04 1,60 32.028,41 32,03

Aproveito esta tabela para mostrar outra característica muito importante. Observe como uma mudança na quantidade de ações afeta drasticamente o VRPA. Para o individuo que comprou 100 ações da PETR4 a R$32,00, o VRPA é de R$32,17 em função dos encargos, contra R$32,03 daquele que comprou 1000 ações a exatamente o mesmo preço. Ou seja, o mercado favorece aqueles que operam grandes volumes, pois é muito mais fácil a ação subir 3 centavos do que 17, e portanto quando o individuo da primeira operação estiver começando a apresentar lucro o segundo individuo já pode ter até realizado o seu lucro e iniciado outra operação.

Mas desde já alerto uma coisa: o VRPA é um indicador para calcular quanto você pagou por sua ação. O verdadeiro valor para se obter lucro eu chamo de VRPV, ou Valor Real para Venda. O VRPV é necessário, pois na hora da venda você também irá pagar a corretagem, impostos e emolumentos. Não é possível conhecer este valor antes da venda, pois tanto os impostos quanto os emolumentos são calculados com base no valor da venda e apenas a corretagem e o ISS são independentes deste valor.

O que você pode fazer é uma projeção, utilizando uma planilha do Excel, para o valor limite mínimo de saída da operação (VRPV). O cálculo do VRPV é um tanto complexo:

Fórmula para o cálculo do VRPV

Podemos ver o seu cálculo para as mesmas operações acima na tabela abaixo:

TIPO AÇÃO VRPA QTD CORRET. ISS EMOL% IRRF% VRPV
VENDA PETR4  32,17 100 14,99  0,78 0,0345% 0,005% 32,34
VENDA PETR4  32,03 1000 14,99  0,78 0,0345% 0,005% 32,06

Observe que o VRPV é ainda mais distante do preço original da ação do que o VRPA. E note que não estamos falando de lucro ainda! Este cálculo serve para mostrar o ponto de saída da operação para fechar no zero-a-zero. Para tirar a prova real, abaixo segue a operação completa de compra e venda comparando o gasto inicial com o retorno final:

TIPO AÇÃO PREÇO QTD BRUTO CORRET. ISS EMOL% IRRF% LÍQUIDO
COMPRA PETR4 32 100 3200 14,99 0,78 0,0345% 0,005%  3.217,03
VENDA PETR4 32,34 100 3234 14,99 0,78 0,0345% 0,005%  3.216,95
                TOTAL  R$ (0,08)
TIPO AÇÃO PREÇO QTD BRUTO CORRET. ISS EMOL% IRRF% LÍQUIDO
COMPRA PETR4 32 1000 32000 14,99 0,78 0,0345% 0,005% 32.028,41
VENDA PETR4 32,06 1000 32060 14,99 0,78 0,0345% 0,005% 32.031,57
                TOTAL  R$ 3,16

Por causa de alguns arredondamentos que o Excel faz na hora de calcular, o VRPV da primeira operação ainda fechou com prejuízo de 8 centavos. Já no caso da segunda operação ela fechou com um lucro de R$3,16. Nos casos em que o VRPV fecha no prejuízo basta somar um centavo no seu valor para encontrar o limite positivo.

Conclusão: Por mais que o preço da ação suba, nunca podemos deixar de prestar atenção nos gastos envolvidos com a corretagem, os emolumentos e os impostos. Pessoas que fazem muitas operações por vez tendem a perder muito dinheiro nestas taxas, e inclusive operações que teoricamente fechariam no positivo podem realizar prejuízo se não prestarmos atenção nestas características. Manter um controle fino da operação utilizando planilhas eletrônicas é uma solução para não cair numa cilada. Os indicadores VRPV e VRPA devem dar uma boa noção de quando a operação começa a se tornar rentável. Além disso, pela análise dos indicadores vemos que existe uma grande vantagem ao operar volumes maiores de ações, pois os custos operacionais se diluem no número de ações. No entanto, é bom tomar cuidado com operações muito grandes que comprometem todo ou grande parte do seu capital, pois estas quando dão errado tendem a levar muita gente à quebradeira.

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